HIIT e Treino de Força: Como Combiná-los
O treino concorrente de força e aeróbio de alta intensidade pode ser integrado sem comprometer as adaptações de força quando a fadiga residual aguda é gerida. A evidência apoia a priorização de modalidades de predomínio concêntrico, o sequenciamento do treino de força antes das sessões de resistência e o recurso a condicionamento intervalado para preservar o rendimento neuromuscular.
Última atualização: 2026-09-12
O Fenómeno de Interferência e Perspetivas Contemporâneas
O treino concorrente (TC) — a integração simultânea de treino de força e condicionamento de resistência no seio de um programa de treino — tem sido historicamente visto como inerentemente antagónico ao desenvolvimento da força muscular máxima, hipertrofia e potência [4]. Paradigmas concetuais iniciais, como o modelo proposto por Docherty e Sporer, defendiam que a interferência atinge o seu pico quando o treino intervalado de alta intensidade (HIIT a 95–100% do ) é combinado com treino de força de repetições moderadas a elevadas ( repetições máximas [RM]) [2].
No entanto, a fisiologia do exercício contemporânea reviu substancialmente esta perspetiva. Dados meta-analíticos que avaliaram atletas treinados de desportos coletivos demonstram que combinar o treino de força com condicionamento baseado em HIIT pode melhorar significativamente a força máxima dos membros inferiores em comparação com o treino de força isolado (diferença média: 4,20 kg, IC 95%: 0,71 a 7,68, ), sem comprometer as adaptações de potência dos membros inferiores (diferença média padronizada: 0,08, IC 95%: -0,23 a 0,39, ) [1]. Estes achados desafiam a premissa de que o treino aeróbio de alta intensidade prejudica inevitavelmente a adaptação neuromuscular [1, 2].
Sinalização Molecular e a Hipótese de Crosstalk Intracelular
Uma única sessão de exercício de força eleva as taxas de síntese proteica muscular (SPM) no músculo esquelético até 2,7 vezes acima dos valores basais de repouso durante a fase inicial de recuperação (1–5 horas), mantendo-se elevações durante 24 a 48 horas [11]. Esta resposta anabólica é primariamente mediada pelo complexo 1 do alvo mecanicista da rapamicina (mTORC1), que impulsiona o início da tradução dependente de cap através da fosforilação de efetores a jusante, incluindo a p70S6 cinase 1 (S6K1) e a proteína 1 de ligação ao fator de iniciação eucariótico 4E (4E-BP1) [10, 11]. Quando o mTORC1 é bloqueado farmacologicamente pela rapamicina, os aumentos iniciais na SPM humana induzidos pelo exercício são eliminados, e a hipertrofia induzida por sobrecarga em modelos de roedores é suprimida em aproximadamente 95% [11].
O modelo molecular clássico de interferência propôs que o exercício de resistência ativa a proteína cinase ativada por 5'-monofosfato de adenosina (AMPK) através do aumento de AMP intracelular gerado pela adenilato cinase [6, 12]. A AMPK fosforilada atua como um regulador negativo do mTORC1 sensível à energia, fosforilando diretamente a subunidade Raptor e aumentando a atividade do complexo de esclerose tuberosa 2 (TSC2), suprimindo assim a fosforilação a jusante da p70S6K e a iniciação da tradução [6, 12]. Concomitantemente, a AMPK promove a biogénese mitocondrial através da transcrição do coativador 1-alfa do recetor gama ativado por proliferador de peroxissoma (PGC-1) e estimula a autofagia através da fosforilação da ULK1 [12].
Exercício de Força Resistência de Alta Intensidade
│ │
Ativação de Akt Ativação de AMPK
│ │ │
Inibição de TSC2 Ativação TSC2 Inib. Raptor
│ └───┬───────┘
▼ ▼
Ativação de mTORC1 ◄─────────────────── Supressão de mTORC1
│
Fosforilação de p70S6K1 & 4E-BP1
│
Tradução Dependente de Cap & SPM Miofibrilar
Apesar deste antagonismo teórico, a investigação empírica revela que a interferência molecular não constitui uma barreira absoluta em condições práticas de treino [2, 9]. Estudos que examinam a síntese proteica miofibrilar (MyoPS) em condições de vida livre e a sinalização aguda pós-exercício demonstram que nem a sinalização inicial de mTORC1 na recuperação nem as taxas integradas de MyoPS são comprometidas quando o treino de força é combinado com HIIT ou treino contínuo de intensidade moderada (MICT) [2]. No músculo esquelético humano, a realização de exercício de força seguida imediatamente por HIIT (10 1 minuto a 90% da frequência cardíaca máxima) provocou uma fosforilação de mTOR (Ser2448) significativamente superior e variantes de mRNA de PGC-1 elevadas em comparação com o exercício de força isolado, embora o marcador de degradação muscular MuRF-1 também tenha estado elevado [9].
Além disso, a ativação da AMPK durante o exercício de resistência é dependente da intensidade: Rose et al. demonstraram uma fosforilação acentuada da AMPK a 85% do versus 35% do , ao passo que o ciclismo de intensidade moderada a ~65% do não conseguiu ativar a AMPK no músculo esquelético em indivíduos treinados em resistência [7]. Dado que o estatuto de treino refina e atenua as vias de sinalização molecular — indivíduos não treinados apresentam respostas transcricionais genéricas, enquanto atletas treinados possuem adaptações distintas e específicas do fenótipo —, a expressão real da interferência é altamente dependente da preparação do atleta, do volume e da execução da sessão [7].
Fadiga Residual Aguda vs. Adaptação Molecular Crónica
A evidência atual indica que o efeito de interferência é predominantemente impulsionado por fadiga neuromuscular e metabólica residual aguda, em vez de uma incompatibilidade molecular crónica permanente [2]. Quando as sessões de resistência de alta intensidade esgotam o glicogénio muscular, induzem fadiga periférica ou geram dano muscular induzido pelo exercício, a produção de força subsequente e a tonelagem (volume-load) alcançada durante o treino de força ficam diminuídas [2, 4].
Modelos atualizados por Vechin et al. indicam que formatos intervalados de muito alta intensidade, tais como o Treino Intervalado de Sprint (SIT, ~180% da potência aeróbia máxima) e o Treino de Sprints Repetidos (RST, ~140% da potência aeróbia máxima), partilham perfis de recrutamento neuromuscular e exigências glicolíticas análogas a séries de força de RM [2]. Estes protocolos de sprints intervalados não atenuam as adaptações neuromusculares em mulheres ativas, jogadores de râguebi ou jogadores de hóquei no gelo [2]. Como o MICT, o HIIT e o SIT promovem adaptações oxidativas periféricas semelhantes (como a biogénese mitocondrial e a angiogénese capilar), os profissionais têm uma flexibilidade substancial na seleção de formatos de condicionamento que limitem a fadiga excessiva [2].
Modalidade de Condicionamento: Stress Mecânico e Dano Muscular
A modalidade de exercício aeróbio dita substancialmente o grau de interferência observado ao longo de intervenções de longo prazo [4, 5]. Uma meta-análise de referência abrangendo 21 estudos e 422 tamanhos de efeito realizada por Wilson et al. identificou diferenças significativas com base na modalidade: protocolos concorrentes de força e corrida resultaram em decréscimos significativos nas adaptações de hipertrofia e força, ao passo que o treino de força combinado com ciclismo não prejudicou estes desfechos [4].
| Desfecho de Adaptação | Treino de Força Isolado (ES) | Treino Concorrente Global (ES) | Impacto Específico do TC com Corrida |
|---|---|---|---|
| Hipertrofia | 1,23 | 0,85 | Decréscimo significativo [4] |
| Força Máxima | 1,76 | 1,44 | Decréscimo significativo [4] |
| Produção de Potência | 0,91 | 0,55 | Redução acentuada [4] |
Esta discrepância é primariamente mecânica: a corrida incorpora impactos repetidos dos pés no solo e fases de travagem excêntrica que induzem maior dano muscular e prolongam os prazos de recuperação estrutural [5]. Por outro lado, o ciclismo e o trabalho com trenó (ex.: empurrões de prowler) são ações predominantemente concêntricas com baixo stress excêntrico, apresentando perfis mecânicos que não agravam o trauma muscular estrutural induzido pelo treino de força [5].
Os parâmetros de volume de resistência também exibem uma relação dose-resposta com a interferência. Wilson et al. reportaram correlações negativas significativas entre a frequência ( a ) e a duração ( a ) do treino de resistência com os ganhos em hipertrofia, força e potência, enquanto a redução de massa gorda correlacionou-se diretamente com a intensidade relativa da resistência () [4]. Consequentemente, o trabalho intervalado de maior intensidade e menor duração representa frequentemente um método mais eficiente em termos de tempo para atingir metas de condicionamento e composição corporal, limitando simultaneamente o volume total de resistência [4].
Sequenciamento de Exercícios e Agendamento de Sessões
Quando o treino de força e o condicionamento aeróbio ocorrem no mesmo dia ou na mesma sessão, o sequenciamento intrassessão influencia tanto a sinalização a jusante como o rendimento no levantamento de pesos [2, 6].
Em modelos pré-clínicos que avaliaram exercício concorrente no mesmo dia com um intervalo de descanso de 1 hora, a execução de exercício de força antes do exercício de resistência (EF-ER) elevou significativamente a fosforilação de alvos anabólicos chave — p70S6K, proteína ribossómica S6 e 4E-BP1 —, enquanto a sequência inversa (ER-EF) não conseguiu elevar estes marcadores [6]. Crucialmente, ambas as sequências de exercício elevaram as proteínas dos complexos da cadeia respiratória mitocondrial (MTCO1, UQCRC2, ATP5A) num grau equivalente, demonstrando que colocar o treino de força em primeiro lugar preserva a sinalização anabólica sem atenuar a biogénese mitocondrial [6].
Em atletas humanos, uma análise de subgrupos meta-analítica demonstra que a ordem interna dos exercícios (força antes vs. depois da resistência) não produz um efeito de subgrupo estatisticamente significativo nos parâmetros de aptidão física em atletas treinados de desportos coletivos [1]. No entanto, com base na hipótese da fadiga residual aguda, posicionar o treino aeróbio de alta intensidade após as sessões de treino de força ou separar as duas modalidades em janelas de treino distintas é recomendado para evitar decréscimos no recrutamento de unidades motoras de alto limiar durante séries pesadas de força [2, 9].
Recomendações Práticas para Mitigar a Interferência
Para integrar o condicionamento aeróbio de alta intensidade com o treino de força preservando a força, a potência e a massa muscular, os profissionais devem aplicar as seguintes estratégias baseadas na evidência:
- Gerir a Frequência e Duração da Resistência: Limite a frequência e a duração do treino de resistência à dose mínima necessária para os objetivos de condicionamento, uma vez que ambos os parâmetros se correlacionam negativamente com as adaptações de força e hipertrofia [4].
- Priorizar Modalidades de Predomínio Concêntrico: Utilize ciclismo, remo ou empurrões de trenó com carga em detrimento da corrida de alto impacto sempre que viável, reduzindo o dano muscular excêntrico e a fadiga estrutural acelerada [4, 5].
- Sequenciar a Força Antes do Condicionamento: Realize o treino de força com cargas máximas antes de sessões de HIIT, SIT ou resistência contínua no mesmo dia, prevenindo que a fadiga residual aguda prejudique a sobrecarga mecânica e as cascatas de sinalização anabólica [2, 6].
- Utilizar Formatos Intervalados de Sprint (SIT/RST): Incorpore SIT (~180% da potência aeróbia máxima) ou RST (~140% da potência aeróbia máxima) para induzir adaptações cardiovasculares e metabólicas com padrões de recrutamento neuromuscular que complementam o treino de força [2].
- Separar as Sessões Quando For Prático: Sempre que a disponibilidade horária o permitir, separe as sessões de condicionamento de alta intensidade e de força por várias horas ou aloque-as a dias alternados para normalizar a perturbação metabólica e permitir a recuperação muscular [9].
- Otimizar o Suporte Nutricional: Mantenha uma ingestão diária basal de proteína de ~1,6 g/kg/dia, distribuída pelas refeições em doses de ~0,25 g/kg para indivíduos mais jovens e ~0,40 g/kg para atletas mais velhos, privilegiando fontes ricas em leucina para sustentar a ativação de mTORC1 e neutralizar a sinalização catabólica concorrente [9, 10].
Referências
Fontes da web
- Effects of Concurrent Strength and HIIT-Based Endurance ...
- Muscle fatigue and interference phenomenon during ...
- Concurrent training with long-interval HIIT does not impair ...
- Concurrent training: a meta-analysis examining ...
- Concurrent Training: Science and Practical Application
- The order of concurrent training affects mTOR signaling ... - PMC
- Aerobic exercise intensity does not affect the anabolic ...
- The order of concurrent endurance and resistance exercise ...
- Acute molecular responses to concurrent resistance and high ...
- The Role of Mammalian Target of Rapamycin (mTOR ... - PMC
- Alcohol, Resistance Exercise, and mTOR Pathway Signaling
- The Role of Mammalian Target of Rapamycin (mTOR) and ...